sábado, 18 de junho de 2011

é assim.

"Após uma manhã difícil, que deixara António sem a sua companheira de mais de 50 anos, está ele sentado numa cadeira disposta no canto da sala com o seu cão, que parece perceber toda a sua tristeza.

Naquela atmosfera escura e sóbria, o pobre senhor recorda, com emoção, os bons momentos que a sua vida lhe trouxe e que, certamente, nunca mais lhe irá trazer. Já marcado pela velhice e a partir daquele dia pela solidão, está aconchegado pelas roupas quentes do inverno frio que paira no seu inconstante coração. Com as mãos engelhadas, acaricia a cabeça do seu cão, de olhar manso e sereno, talvez também ele partilhando com o dono a saudade de alguém. A relação que estabelecem entre si demonstra afecto, proximidade, aconchego e refúgio.

Sobre as pernas do velhote, a manta vermelha contrasta com um cenário de escuridão e tristeza, medo até, medo de um futuro indesejado e incerto. Num inverno nevoso, uma árvore rasga a já quebrada e grande janela que deixa passar a pouca luminosidade do dia para dentro do negro e silencioso cenário.

Retratos dispostos à esquerda do senhor, parecem eles próprios também transmitir a solidão do mesmo. António tem medo de os observar, de recordar os momentos passados e o quando foi feliz. Na sua cabeça, um concentrado de recordações deixam-no atordoado e sem vontade de continuar a viver.

O dia da partida foi o que mais lhe custou. A sua esposa, disposta na cama, já fraca e sem grande noção do que se passava à sua volta, despedia-se deste mundo quase sem dor, muito serenamente. Apesar da fraqueza, conseguiu ainda arranjar forças para agarrar na mão de António, porém aos poucos tal firmeza foi-se perdendo, os seus lindos olhos azuis iam-se fechando, a sua face rosada ia ficando da cor da neve que caíra naquele dia. Aos poucos ia ficando gelada, sem forças para dizer o que quer que fosse ao marido, também ele gélido, mas apenas do coração, doloroso pelo futuro sóbrio que o esperava.

De cabelos brancos e nariz grande, encontra-se cabisbaixo, não só por estar a trocar olhares com o fiel amigo, mas também porque a vida não lhe reserva sorrisos rasgados nem liberdade para continuar a ser feliz. Os dias seguintes só o empurrarão para o fim da meta."

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Desabafo

Obrigado, ó memória minha,
por me teres feito lembrar
de tudo o que tinha.
Tentei porém recusar
o teu chamamento.
Não consegui parar,
só me trouxeste sofrimento!

Fizeste-me recordar
todos os dias harmoniosos,
todavia a ansiar
por momentos tenebrosos.

Até que o dia chegou.
Ia ele continuando,
e também o sofrimento
não ia atenuando.
Até que o dia acabou.

terça-feira, 29 de março de 2011

Palavra


Palavra,
por sinal plena em sentimento,
torna-se espontaneamente,
razão de um grande tormento.

A tua plenitude, rara
aos olhos de quem a vê,
por vezes sai-nos cara,
cara (não) sei porquê.

Sais muitas vezes vistosa,
assim te sentes incontornável,
todavia tenebrosa,
de velocidade (in) controlável.

(...)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Amor

Ó amor, que da tua essência
ninguém ousou desvendar
terás tu a simples prudência
de quereres pistas nos dar?

É um parecer que nada parece,
rio de bronze, prata e ouro,
às suas leis ninguém obedece
pois não se trata de um tesouro.

Desespero, desconcerto, dor,
Amor é bem mais que isto,
Amor é natureza sem cor
É um crucificado como Cristo.

É um ter intocável,
partilha, choro, riso e dor,
tudo isto é inacabável,
quão complexo é o amor!

Amor, ó criatura venerada
faz sentir com mais furor
essa tua chama inacabada!

Vinde vós a mim,ó Amor
perfeito espinho, perfeita dor!